Conheçam o casal que largou tudo para conhecer o Mundo

  • 02 de maio de 2019


Às nove horas da noite, numa praia deserta do Equador, Ingrid e Paulo Azevedo se preparavam para dormir. Com o fantasma da violência sul-americana rondando seus pensamentos, debatiam se o local escolhido para passar a noite, tão bonito de dia, não poderia se tornar um pesadelode noite. De repente, alguma força externa fez toda a barraca chacoalhar. “Quem está aí? ”, ambos exclamam, mas não há resposta. Depois de alguns instantes de tensão, outra vez a mesma coisa. Paulo conclui que é um caso de vida ou morte e pula para fora. Mas não havia ninguém. Apenas alguns minutos depois descobrem a causa daquela confusão toda: um terremoto.

 

Embora o ato de viajar exponha o viajante a situações distintas de suas referências prévias, no caso de Ingrid, 31, e Paulo, 32, histórias como essas passaram a ser sua nova rotina. O casal paulista passou 8 meses viajando pela América do Sul de carro, às vezes dormindo na casa de amigos, às vezes acampados ou em hostels, mas na maioria das vezes dentro do próprio veículo, um jipe 4x4.

 

 

Guiga e Paulinho, como costumam ser chamados, queriam experimentar essa vida desde os tempos de namoro. O casamento e a mudança para Manaus, em 2014, deram início ao planejamento do que seria no futuro uma expedição de dois anos pelo mundo. Ela, médica e ele, engenheiro naval, tinham sua casa, seus trabalhos e seus horários. Suas coisas. Em junho de 2018, porém, deixaram a casa, pediram demissão dos trabalhos e venderam quase todas as coisas. Colocaram o que coube no carro e saíram para viajar pelo mundo, começando pelos países vizinhos. Depois de 8 países e 47.000 km, estão agora se preparando para seguir por mais 16 meses, dessa vez só com as mochilas, pelos outros continentes. Serão no total mais de 50 países.

 

 

“Até pouco tempo atrás, as típicas fases da vida adulta eram estudar, trabalhar e se aposentar, incluindo em algum momento o estabelecimento de um lar estável, com casa própria, filhos e netos. Hoje, porém, a vida nômade, antes restrita a populações tradicionais ou estilos de vida alternativos, é um caminho possível e buscado por cada vez mais gente”, afirma Paulo. “As pessoas costumam perguntar por que estamos fazendo isso. Não temos uma resposta definitiva. Preferimos nos perguntar por que não fazer. Assim como você corre riscos ao mudar, há outros riscos em manter as coisas como estão”, pondera Ingrid.“Cada lugar que passamos, cada pessoa que conhecemos, é parte da explicação. O desafio de planejar e executar essa mudança de vida nos lembra aquela resposta que os alpinistas costumam dar quando perguntam por que eles escolhem subir uma montanha: ‘porque ela está lá’. A nossa versão é: porque o mundo está aí. E ele parece ainda maior quando comparado ao tempo limitado que todos nós temos. Por isso demos esse nome para nossa viagem: ‘a vida é curta, o mundo é grande’”, afirma Paulo.

 

 

Essa vida na estrada, porém, não é feita só de alegrias. “Se julgarmos pelas mídias sociais, todo mundo que vive viajando está feliz, realizado e bem-sucedido. Mas não é bem assim. Se antes a rotina te oprimia, a falta dela também pode ser desafiadora. Não temos mais nosso banheiro, nossa geladeira, nossos livros. Tem sido também um novo casamento, pois o convívio 24h com o cônjuge, praticamente sem privacidade, pode causar conflitos que antes não existiam”, explica Ingrid. “No entanto, estamos aprendendo como nunca. A vida nômade é uma escola de respeito, de paciência e de tolerância”, complementa. 

 

 

Mas viajar por longos períodos não é coisa para poucos? “Com o tempo, está ficando muito claro para nós: todos podem viajar! Nós viajamos de maneira simples, usando com cuidado o dinheiro que economizamos durante cinco anos de trabalho. Cozinhamos a própria comida e gastamos muito pouco com hospedagem, pois nos últimos meses dormimos quase sempre dentro do carro. Com isso, temos hoje praticamente o mesmo custo que tínhamos na vida anterior. Mas tem gente viajando quase sem reservas, e vão trabalhando ao longo do caminho, seja remotamente pela internet, seja em trabalhos temporários. O tipo de transporte também varia muito. Uns viajam de veleiro ou em caminhões adaptados, outros de bike ou a pé, pegando carona. O que não pode faltar é uma certa rusticidade e alguma disposição para correr riscos”, explica Paulo.

 

 

Desde quando planejavam sua viagem, o casal tinha a intenção de incluir na expedição alguns trabalhos voluntáriose ajuda a projetos sociais, mas não sabiam exatamente como conciliar essas atividades. “Saímos de Manaus com essa pendência e ao longo do caminho conhecemos pessoas com histórias de vida fantásticas que nos inspiraram a criar a campanha que estamos fazendo agora. Iremos apoiar com nosso trabalho e com campanhas pela internet 3 projetos de educação ao longo da viagem”, comenta Ingrid.

 

 

 

O casal viajante escolheu um projeto na América do Sul, um na África e outro na Ásia. Todos eles em parceria com a ADRA, uma ONG de desenvolvimento e assistência presente em mais de 130 países. “O projeto da América do Sul é a ETAM, uma escola técnica para a população ribeirinha do Rio Massauari, na Amazônia. Hoje, voluntários do Brasil e do mundo estão lá contribuindo para mudar o futuro de dezenas de crianças e suas famílias. Nos consideramos privilegiados de poder participar desse trabalho, pois é em servir aos outros que encontramos não apenas um maior sentido para a viagem, mas também para a nossa vida”, explica Paulo.

 

 

E o que os aguarda no futuro, depois da viagem? “Queremos concluir o roteiro e as campanhas e depois buscar um novo local para viver e ter filhos. Por onde passamos temos nos perguntado se não será ali nossa próxima casa. Só esperamos poder estar mais perto da natureza, pois a viagem tem promovido essa reorientação para uma vida mais simples, depois de tanto tempo morando em grandes cidades”, comenta Paulo. O que fica evidente é que adotar uma vida nômade não reserva apenas mudanças no local de moradia ou na progressão da carreira profissional. “São mudanças queocorrem principalmente na nossa percepção de mundo e na maneira como interagimos com as pessoas”, conclui Ingrid. Apesar de ainda não saberem como viverão depois da viagem, uma coisa é certa: eles próprios já não serão mais os mesmos.

 

Paulo e Ingrid estreiam hoje como colaboradores do Blog Márcio no Mundo. Eles compartilharão dicas e experiências sobre os lugares por onde têm passado. Você pode segui-los no Instagram em @shortlife.bigworld

 

 



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Sobre o Autor

Paulo e Ingrid

um casal que deixou tudo para viver uma aventura ao redor do mundo @shortlife.bigworld


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