Nova Deli: caótica, cultural, religiosa e apaixonante

  • 01 de outubro de 2015


Chegar a Índia foi assim: surreal. No sentido literal da palavra mesmo. Nossa porta de entrada foi Nova Délhi, um clássico! Não tinha como não ser. Uma cidade cosmopolita e ao mesmo tempo tradicional. Que guarda centenas de anos de história em cada ruela.


Aterrisamos no aeroporto Indira Gandhi num domingo de madrugada.  Um aeroporto moderno, com todas as praticidades que qualquer hub do mundo pode oferecer. Fizemos o cadastro do nosso e-visa (o visto da Índia tira online e você apenas cadastra a digital na chegada), e seguimos então por longas esteiras através dos terminais e duty frees. Pegamos a bagagem (ufa, dessa vez chegou) e partimos para pegar um metrô até New Delhi Railway Station - Obs: dentro ainda do desembarque existem várias informações sobre formas de transporte e quanto custa em média, escrito arquitetonicamente nos pilares e paredes. E foi assim que decidimos ir de metrô, pois custava 1/4 do preço do táxi pré-pago.


Saímos do aeroporto maravilhados, já com um chip de celular na mão (que só funcionaria daqui a 12h, mas tudo bem). Pegamos a linha expressa que faz a ligação com o centro da cidade, super moderna. Vejam bem, depois de morar em SP 5 anos, tínhamos certeza que qualquer trem na Índia seria, no mínimo, a linha vermelha sentido Itaquera as 18:00h


Mas a Índia que estavámos vendo não tinha vacas por todos os lugares. Confesso que estava esperando algo diferente. Talvez o conceito que tínhamos desse país foi formado por cenas do filme "Quem quer ser um milionário?", lembra?


Nossa estação final ficava no coração de Nova Délhi, e nosso hotel a poucos minutos de caminhada dali, assim vimos no mapa quando ainda tínhamos wifi.

 

 
Mochilas nas costas e seguimos super felizes que tínhamos economizado no táxi. Antes de sairmos da estação perguntamos qual a direção da Arakashan Road aos policiais que trabalhavam no raio-x (obs: todas as entradas de metrôs, aeroportos, museus, templos e locais públicos coletivos tem raio-x e inspeção). Porém, ninguém soube nos informar, sabíamos que era bem próximo, mas sem sinal de celular era impossível dizer qual lado deveríamos seguir. Placas na rua é algo muito raro por aqui, trabalham apenas com pontos de referência rsrs.


Na porta tinham centenas de tuk tuks, e depois de dizer não a vários motoristas, decidimos aceitar que não íamos conseguir chegar caminhando no hotel e entramos nesse maravilhoso transporte de um rapaz bem simpático.


 

Ao entrar no carrinho apertado e pitoresco cheios de mochilas, bateu aquele sentimento de turista, sabe? Tiramos fotos, filmes, pensamos: agora começou nossa viagem pela Índia.


Ao deixarmos a estação de metrô para trás tudo mudou. Muita gente por todo lado, buzinas sem parar. As poucas calçadas que existiam estavam ocupadas por vendedores, e você podia ver qualquer tipo de lixo e dejeto no chão. O cheiro também foi bem característico, não no bom sentido.


Ao seguirmos para o hotel fomos parados numa espécie de posto de fiscalização que nos informou que precisaríamos de uma permissão para acessar a região central da cidade, pois estava havendo o festival de Ganesh. Deveríamos então tirar a permissão de acesso, gratuita, num escritório do governo. Assim, seguiu nosso motorista de tuk tuk em direção ao escritório do governo para tirarmos nosso 'passe'.

 
Tudo começou a cheirar mal quando nosso motorista andou em círculos, pegou um caminho deserto e nos deixou num escritório do governo que ficava num beco. Depois de um aeroporto tão imponente, pensamos que o escritório de turismo do Governo da Índia não seria em um beco, certo?!
Nossos celulares ainda não funcionavam, então não tínhamos como confirmar essas informações, ou sequer saber onde estávamos.


Entramos no escritório para tirar a tal da permissão e foi tudo muito estranho. Todos de chinelos, camisas furadas, falando que não poderíamos acessar a região do nosso hotel, por conta do festival. Ligaram para o nosso hotel, e falaram que nossa reserva estava cancelada. Nos ofereceram outro que custava INR 22.000 (R$ 1.840,00 a diária). Depois sugeriram que saíssemos de Délhi e voltássemos após o festival. Nos mostraram o site de passagens de trem esgotadas para as cidades da Índia. Então, nos fizeram uma oferta maravilhosa: um tour com um motorista particular pelas principais cidades do norte da Índia, e que seria bem em conta. Essa foi a cartada final, em que mundo um tour com motorista particular sai em conta?? Agradecemos a gentileza, e saímos correndo dali.


Pedimos ao nosso motorista para nos levar de volta a estação de metrô, pois estavámos decididos a ir embora da Índia. Depois do que passamos nos Emirados, estávamos ainda abalados com tudo aquilo. 


Voltamos para o aeroporto pensando se íamos para Singapura ou Atenas. Mas chegando lá decidimos dar uma última chance a Índia. Achamos um telefone público e ligamos para o hotel, que nos informou que sim tinha um festival mas que não precisávamos de nenhum tipo permissão para acessar a área, a mesma estava aberta para todos.

 

Foi aí então que descobrimos que tínhamos caído num dos CLÁSSICOS GOLPES DE TURISMO que são aplicados na Índia. Infelizmente, os golpes com turistas aqui são muito comuns. 99% das pessoas que conversamos tinham passado por golpes, cada um contou um diferente: cidade fechada para festival, conflito entre muçulmanos e hindus, toque de recolher e até falaram que o hotel de um Russo que conhecemos tinha sofrido um atentado terrorista. 


O objetivo principal de um golpe é te vender um pacote de turismo, ou um hotel que eles ganhem comissão. Não vão te assaltar, mas vão te enganar para que você compre algo que não precisa. Sempre se passam por "Escritórios do Governo", ou que são oficiais.

 
Se for a Índia você vai ter essa experiência, acredite em mim. A melhor forma de sair ileso disso é confirmar com seu hotel via email as condições de acesso, ter um mapa offline no celular (baixamos o maps.me) e sempre falar que tem um amigo no hotel te esperando, e que você sabe que está tudo bem. Caso contrário, desça do tuk tuk imediatamente. Ah, os motoristas de tuk tuk são os maiores intermediadores de golpes, fiquem sempre atentos aos caminhos que estão fazendo (não aceite que te levem para escritórios do governos ou mercados que são tax free, isso cheira a golpe!


Quando finalmente chegamos ao nosso hotel as 09 da manhã, ainda estávamos confusos com o que tinha acontecido. Imaginem que depois de 13 horas viajando e do nosso 'quase golpe' tudo que queríamos era relaxar um pouco. O hostel que ficamos hospedados era bem cool, mas assim que entramos no quarto nos deparamos com o pavor de qualquer mulher: baratas! Dezenas delas, de diferentes tamanhos e espécies.


Matamos todas as que vimos e capotamos de cansaço (claro que a Madu dormiu dentro do saco de dormir como se fosse um casulo, fechado até a cabeça). Acordamos a noite e saímos na rua do hotel armados de preconceito com todos. Dizem que o choque cultural na Índia é como um soco no estômago, e nós comprovamos isso. Muito caótica, com excesso exploração ao turismo (você vai ser assediado 90% do tempo), mas depois que você aprende a lidar com eles e a ignorar a sujeira, e não se preocupe, você vai aprender a lidar com a sujeira, a experiência é mais incrível ainda!


Não existe sequer um milésimo de segundo que alguém não esteja buzinando. E você divide o espaço na rua com ônibus, carros, motos, vacas, tuk tuks, cachorros, vendedores de tudo que vc imaginar, tudo isso na mão inglesa e sem calçada! ????


Os templos são uma coisa a parte. Completamente limpos e organizados, numa paz incrível! E essa mistura por pior que soe, é maravilhosa! É um mundo novo, diferente, colorido, onde quase todas as mulheres ainda usam sari, onde todo lugar tem cheiro de incenso e tempero, e que apesar do trânsito caótico todo mundo se entende.

 


Comida indiana é um capítulo a parte. Maravilhosa, mas se prepare para muito tempero, curry, óleo, fritura e bem picante (mesmo quando pedir 'no spicy', ainda assim será picante). Passamos quase 30 dias na Índia e tivemos pouquíssimos 'efeitos colaterais' rsrs. Seguem algumas dicas para sobreviver sem uma Delhi Belly: vire vegetariano, não tome água de torneira, só tome água engarrafada (e confira o lacre), comidas sempre cozidas ou fritas e não tome bebidas com gelo (a não ser em locais muito confiáveis).

 
Comidas de rua são uma delícia e parte da experiência na Índia, procure uma que seja feita na hora e que sempre tenha muitas pessoas locais comendo, isso é um bom sinal. Ah! Arrisque comer com a mão, vai ser ainda mais gostoso!


Depois de nossas primeiras impressões já estávamos familiarizados com o lugar. Nova Délhi vai te conquistando de uma forma que você não consegue mais controlar! 

 


 

Usamos o metrô para todos os lugares. É a forma mais rápida de chegar, e mais barata, claro. O metrô de Délhi é grande e chega em todos os pontos turísticos. 


Primeiro fizemos a pé os que estavam nas proximidades do hotel, ou seja, Old Delhi. Aqui vivenciamos aquela Índia dos filmes, muito caótica, suja, barulhenta, muita gente. Mas tudo vai despertando um querer conhecer, viver, fazer parte.


A caminhada até o Forte Vermelho, passando pelo Chandni Chowk (Spice Market), seguindo para Jama Masjid é imperdível! Essa é uma região para se perder caminhando pelas estreitas ruas, entre temperos e saris. Chegue ao imenso Forte Vermelho para se impressionar com sua magnitude, toda construída em arenito vermelho (característica das construções na era Mughal), e quase vizinho veja a Jama Masjid, a maior mesquita de toda Índia. Um país com predominância Hindu, repleto de muçulmanos e uma pitada de todas as outras religiões. Um must see de Delhi.

 

Jama Masjid

 


 

Depois pegamos um Cycle Rikshaw até sair do caos de Old Delhi, seguimos de metrô para Connaught Place. Um choque, completamente diferente de onde viemos. Esse moderno centro de lojas faz parte da Délhi que foi projetada. Em círculos concêntricos perfeitos estão espalhados restaurantes, shopping, lojas e bares (boa pedida para quem quer tomar um chopp a noite), além de ser o maior centro comercial e financeiro de Délhi.


 

No outro dia retomamos nossa rota e fomos até o India Gate. Lá tivemos nossa primeira experiência como celebridades. Exato, celebridades. Tipo Angelina Jolie e Brad Pitt rsrs. Os turistas indianos viajam bastante, e alguns deles nunca viram um ocidental. Ou simplesmente querem tirar uma foto com você para postar no facebook, e são centenas deles. Todos ficam te olhando, e basta o primeiro falar: "Madam, excuse me, can I take a picture?", que todos os que estão ao redor vão tirar fotos com você. Apertamos mãos, seguramos bebês, fizemos poses bollywodianas (eles adoram!), demos até autógrafos! E muitas vezes chegam fotógrafos profissionais para tirar fotos nossas com eles, e depois vender! 

 

Demais! Chegamos a passar quase 1 hora no India Gate e saímos de fininho, pois senão tenho certeza que estaríamos lá até agora tirando fotos rsrs. Escapamos dos papparazzis e fomos para ao Rashtrapati Bhavan, a residência oficial do presidente, por uma longa avenida arborizada, com parques, lagos e fontes nas laterais. O centro político da Índia, que reúne todos os ministérios é uma maravilha urbanística.
 

 

Depois, embarcamos novamente no metrô e fomos para o Templo de Lótus, onde as 27 pétalas brancas transformam a paisagem. Cercado por um parque, o moderno templo desperta uma paz ao ser observado. Após a visita, ficamos sentados numa sombra apenas vendo o ir e vir das pessoas, encantados com cada sari e cada rosto marcante.
 

 

Próximo destino foi o complexo de Qutb Minar. Pegamos um tuk tuk até lá, para ver as ruínas do que foi um dia uma das mesquitas mais importantes de Delhi, e seus minaretes ainda de pé, sendo conhecido como a Torre de Pisa da cidade.
 

Exaustos voltamos para o hostel, mas não antes de comer um Paneer Butter Masala. ????
 

Acordamos tristes em pensar que era nosso último dia, e deixamos o melhor para o final, só que ainda não sabíamos disso rsrs. Depois do nosso café da manhã acompanhado de um delicioso chai, fomos para o Túmulo de Humayun. Uma ida a Delhi tem que ter uma passada na tumba em que o Taj Mahal foi inspirado para ser construído. 
 

Fechamos o dia com chave de ouro. Para nós, o Templo de Akshardham foi incrível! Infelizmente, não é possível tirar nenhuma foto de um dos maiores templos hindu do mundo. Os entalhes nas paredes, pilares e teto em mármore branco, o lago com água dos 151 rios e lagos sagrados, o arenito rosa entalhado da fachada, os caminhos que o cercam e jardim de lótus, ficarão para sempre guardados na memória. Apenas fechar os olhos e se sentir lá de novo, sabe?
 

 

Vimos o sol se por e as luzes do templo ascenderem, esperando para ver o que seria o espetáculo de luz, água e fogo mais lindo que já assistimos! Na verdade, subestimamos o show. Achávamos que seria apenas um showzinho de fonte, e ficamos ali sentados no meio de milhares de indianos apenas para ficar boquiabertos e totalmente encantados com o que estava acontecendo! Simplesmente incrível!
 

O tchau para Nova Délhi no dia seguinte, foi bem difícil. Mas a animação de estar seguindo para ver o Taj Mahal nos dominava. Chegamos na Estação de Trem, bem caótica e suja, e apreensivos sobre como seria nossa viagem de trem até Agra. Assentos na classe 3A, embarcamos para o que foi o início da nossa aventura no triângulo dourado da Índia.

 



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Sobre o Autor

Laion e Madu

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